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A EDUCAÇÃO ATUAL PRODUZ ZUMBIS

























O psiquiatra chileno Claudio Naranjo tem um currículo invejável. Formou-se em medicina na Universidade do Chile, especializou-se em psiquiatria em Harvard e virou pesquisador e professor da Universidade de Berkeley, ambas nos EUA. Desenvolveu teorias importantes sobre tipos de personalidade e comportamentos sociais. Trabalhou ao lado de renomados pesquisadores, como os americanos David McClelland e Frank Barron. Publicou 19 títulos. Sua trajetória pode ser classificada como irrepreensível pelo mais ortodoxo dos avaliadores. Ele é, inclusive, um dos indicados ao Nobel da Paz deste ano. É comum, no entanto, que Naranjo seja chamado, em tom pejorativo, de esotérico e bicho grilo. Há mais de três décadas, ele e a fundação que leva seu nome pregam que os educadores devem ser mais amorosos, afetivos e acolhedores. Ele defende que essa é a forma mais eficaz de ajudar todos os alunos – não só os melhores – a efetivamente aprender “e assim mudar o mundo”, como ele diz. Claudio Naranjo esteve no Brasil para participar do evento sobre educação básica Encontro de Educadores.

ÉPOCA – O senhor é psiquiatra e desenvolveu teorias importantes em estudos de personalidade. Hoje trabalha exclusivamente com educação. Por que resolveu se dedicar a esse tema?
Claudio Naranjo – Meu interesse se voltou para a educação porque me interesso pelo estado do mundo. Se queremos mudar o mundo, temos de investir em educação. Não mudaremos a economia, porque ela representa o poder que quer manter tudo como está. Não mudaremos o mundo militar. Também não mudaremos o mundo por meio da diplomacia, como querem as Nações Unidas – sem êxito. Para ter um mundo melhor, temos de mudar a consciência humana. Por isso me interesso pela educação. É mais fácil mudar a consciência dos mais jovens.

ÉPOCA – Quais os problemas do modelo educacional atual na opinião do senhor?
Naranjo – Temos um sistema que instrui e usa de forma fraudulenta a palavra educação para designar o que é apenas a transmissão de informações. É um programa que rouba a infância e a juventude das pessoas, ocupando-as com um conteúdo pesado, transmitido de maneira catedrática e inadequada. O aluno passa horas ouvindo, inerte, como funciona o intestino de um animal, como é a flora num local distante e os nomes dos afluentes de um grande rio. É uma aberração ocupar todo o tempo da criança com informações tão distantes dela, enquanto há tanto conteúdo dentro dela que pode ser usado para que ela se desenvolva. Como esse monte de informações pode ser mais importante que o autoconhecimento de cada um? O nome educação é usado para designar algo que se aproxima de uma lavagem cerebral. É um sistema que quer um rebanho para robotizar. A criança é preparada, por anos, para funcionar num sistema alienante, e não para desenvolver suas potencialidades intelectuais, amorosas, naturais e espontâneas.

ÉPOCA – Como é  possível mudar esse modelo?
Naranjo – Podemos conceber uma educação para a consciência, para o desenvolvimento da mente. Na fundação, criamos um método para a formação de educadores baseado em mais de 40 anos de pesquisas. O objetivo é preparar os professores para que eles se aproximem dos alunos de forma mais afetiva e amorosa, para que sejam capazes de conduzir as crianças ao desenvolvimento do autoconhecimento, respeitando suas características pessoais. Comprovamos por meio de pesquisas que esse é o caminho para formar pessoas mais benévolas, solidárias e compassivas. Hoje a educação é despótica e repressiva. É como se educar fosse dizer faça isso e faça aquilo. O treinamento que criamos está entre os programas reconhecidos pelo Fórum Mundial da Educação, do qual faço parte. Já estive com ministros da Educação de dezenas de países para divulgar a importância dessa abordagem.

ÉPOCA – E qual foi a recepção?
Naranjo – A palavra amor não tem muita aceitação no mundo da educação. Na poesia, talvez. Na religião, talvez. Mas não na educação. O tema inteligência emocional é um pouco mais disseminado. É usado para que os jovens tomem consciência de suas emoções. É bom que exista para começar, mas não tem um impacto transformador. A inteligência emocional é aceita porque tem o nome inteligência no meio. Tudo o que é intelectual interessa. Não se dá importância ao emocional. Esse aspecto é tratado com preconceito. É um absurdo, porque, quando implementamos  uma didática afetuosa, o aluno aprende mais facilmente qualquer conteúdo. Os ministros da Educação me recebem muito bem. Eles concordam com meu ponto de vista, mas na prática não fazem nada. Pode ser que isso ocorra por causa da própria inércia do sistema. O ministro é como um visitante que passa pelos ministérios e consegue apenas resolver o que é urgente. Ele mesmo não estabelece prioridades. Estou mais esperançoso com o novo ministro da Educação de vocês (Renato Janine Ribeiro). Ele me convidou para jantar, para falarmos sobre minhas ideias. É a primeira vez que a iniciativa parte do lado do governo. Ele é um filósofo, pode fazer alguma diferença.
"Quando há amor na forma de ensinar, o aluno aprende mais facilmente qualquer conteúdo"

ÉPOCA – Para quem decidiu ser professor, não seria natural sentir amor, compaixão e vontade de cuidar do aluno?
Naranjo – Uma vez dei uma aula a um grupo de estudantes de pedagogia na Universidade de Brasília. Fiquei muito decepcionado com a falta de interesse. Vendo minha expressão, o coordenador me disse: “Compreenda que eles não escolheram ser educadores. Alguns prefeririam ser motorista de táxi, mas decidiram educar porque ganham um pouco mais e têm um pouco mais de segurança. Estão aqui porque não tiveram condições de se preparar para ser advogados ou engenheiros ou outra profissão que almejassem”. Isso acontece muito em locais em que a educação não é realmente valorizada. Quem chega à escola de educação são os que têm menos talento e menos competência. Não se pode esperar que tenham a vocação pedagógica, de transmitir valores, cuidar e acolher.

ÉPOCA – O senhor diz que o sistema de educação atual desperdiça talentos, rotulando-os com transtornos e distúrbios. Pode explicar melhor esse ponto?
Naranjo – Humberto Maturana, cientista chileno, me contou que a membrana celular não deixa entrar aquilo que ela não precisa. A célula tem um modelo em seus genes e sabe o que necessita para construir-se. Um eletrólito que não lhe servirá não será absorvido. Podemos usar essa metáfora para a educação. As perturbações da educação são uma resposta sã a uma educação insana. As crianças são tachadas como doentes com distúrbios de atenção e de aprendizado, mas em muitos casos trata-se de uma negação sã da mente da criança de não querer aprender o irrelevante. Nossos estudantes não querem que lhe metam coisas na cabeça. O papel do educador é levá-lo a descobrir, refletir, debater e constatar. Para isso, é essencial estimular o autoconhecimento, respeitando as características de cada um. Tudo é mais efetivo quando a criança entende o que faz mais sentido para ela.

ÉPOCA – Por que a educação caminhou para esse modelo?
Naranjo – Isso surgiu no começo da era industrial, como parte da necessidade de formar uma força de trabalho obediente. Foi uma traição ao ideal do pai do capitalismo, Adam Smith, que escreveu A riqueza das nações. Ele era professor de filosofia moral e se interessava muito pelo ser humano. Previu que o sistema criaria uma classe de pessoas dedicadas todos os dias a fazer só um movimento de trabalho, a classe de trabalhadores. Previu que essa repetição produziria a deterioração de suas mentes e advertiu que seria vital dar a eles uma educação que lhes permitisse se desenvolver, como uma forma de evitar a maquinização completa dessas pessoas. Sua mensagem foi ignorada. Desde então, a educação funciona como um grande sistema de seleção empresarial. É usada para que o estudante passe em exames, consiga boas notas, títulos e bons empregos. É uma distorção do papel essencial que a educação deveria ter.

ÉPOCA – Há algo que os pais possam fazer?
Naranjo – Muitos pais só querem que seus filhos sigam bem na escola e ganhem dinheiro. Acho que os pais podem começar a refletir sobre o fato de que a educação não pode se ocupar só do intelecto, mas deve formar pessoas mais solidárias, sensíveis ao outro, com o lado materno da natureza menos eclipsado pelo aspecto paterno violento e exigente. A Unesco define educar como ensinar a criança a ser. As Constituições dos países, em geral, asseguram a liberdade de expressão aos adultos, mas não falam das crianças. São elas que mais necessitam dessa liberdade para se desenvolver como pessoas sãs, capazes de saber o que sentem e de se expressar. Se os pais se derem conta disso, teremos uma grande ajuda. Eles têm muito poder de mudança. 

*entrevista para Época, 2015

RUMO AO DESCONHECIDO - IV

Minha primeira aula na escola foi de língua russa e estudamos as partes do corpo. Havia uma professora que ensinava francês no currículo normal da escola e foi designada para me dar aulas diárias particulares de idioma russo - Ludmila Anatolia. Ela tinha uma voz adorável que me fazia levitar nas aulas. 

Todas minhas necessidades eram supridas. Já nos primeiros dias em Kiev, me levaram a uma loja de roupas por que eu tinha direito a comprar roupas e botas para o frio e na verdade, os sapatos que eu havia levado do Brasil se haviam aberto como de papel com toda aquela neve. Eu recebia uma ajuda de custo em rublos para me dedicar aos estudos, além de claro, não pagar por absolutamente nada na escola ou alojamento. As sapatilhas e sapatos de dança a caráter eram fornecidos e tudo que eu tinha a fazer era me adaptar a aquela nova cultura. Por este lado foi tudo muito fácil. Me sentia em casa lá. 

Ainda assim, não foi fácil ficar tanto tempo longe da família. Se hoje em dia podemos nos conectar com qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, em tempo real, na época ainda usávamos escrever cartas que enviávamos pelo correio e dependíamos de telefone para poder ouvir a voz de alguém querido. Eu, às vezes, ficava um dia inteiro na central telefônica (único lugar de onde podia ligar para o Brasil) e ao final não conseguia falar com ninguém. 
Tanto o mundo mudou desde aquela época... 

Tive a chance de conhecer e ter experiências em um país com um sistema político diferente e perceber o quanto isso modifica os valores e consequentemente a vida das pessoas. Era uma vida sem grandes confortos, mas sem este consumismo que nos é incutido de tal forma que sequer nos damos conta do quão desnecessário é e do quanto na verdade, torna nossa vida descartável. As pessoas frequentavam os espaços culturais e tinham discernimento crítico sobre o que viam, apreciavam seus artistas, conheciam em detalhe o acervo dos museus da cidade, sabiam suas peças de repertório preferidas e principalmente, incentivavam e respeitavam estudantes e aspirantes das artes. 

Naquele mundo havia uma certa aura de confiança e companheirismo, lembro dos russos como pessoas de espírito forte e alegre. Muito diretos e sem as máscaras sociais de quem confunde interação com superficialidade. Jamais diria que era um mundo perfeito, mas sem dúvida era mais solidário, mais caloroso, mais inspirador.
Para mim era um mundo novo que se apresentava em toda sua plenitude e o que mais pode desejar um artista do que mergulhar no desconhecido?

fotos: Vaslav Nijinski (Kiev, 12 de Março de 1889 — Londres, 8 de abril de 1950)

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RUMO AO DESCONHECIDO - III


As famílias russas cobiçavam colocar suas crianças  na Escola de Ballet. No início do ano letivo havia multidões de pais com suas crias, entre 9 e 10 anos, aguardando pelos exames de admissão. Lembro dos pequenos grupos percorrendo os corredores com pouca roupa, as crianças juntinhas como pintinhos, indo de uma sala para outra, de um exame para o outro. Os pais aguardavam, na maior expectativa, torcendo. Daquelas 300 crianças que se submetiam aos testes, seriam admitidas aproximadamente duas turmas de meninas e uma de meninos, cada uma com uma média de 12 crianças. Estes sortudos frequentariam aquela escola e em um turno receberiam os conteúdos básicos de toda escola comum (matemática, língua russa, geografia, história, etc) e no outro, formação como artistas bailarinos.

A escola contava com amplas salas de dança, com grandes janelas para o parque, piso de madeira que regávamos durante a aula substituindo o linóleo e o uso do tóxico breu. Havia pianos de cauda em todas as salas e cantos da escola e as pianistas tinham quase tanta autoridade na aula como os professores, não perdiam a oportunidade de corrigir os alunos que se atreviam a perder a música. Os professores, no entanto, eram respeitadíssimos, nós alunos levantávamos nos corredores sempre que algum passava.
Todos ficávamos o dia inteiro na escola. Fazíamos as refeições juntos, no refeitório. Todos que eram admitidos na escola e eram de localidades vizinhas, tinham direito também a morar no alojamento, desde criança até terminarem seus estudos. Havia bailarinos de todas as idades no alojamento.

Passei a viver em um grande quarto dividido com mais 7 colegas russas, do curso. Experiência incrível de compartilhamento, desapego, tolerância e respeito. Todas estávamos longe de casa e de vez em quando, chegavam grandes encomendas para alguma menina, presentes e gostosuras enviadas pelos pais, que rendiam boas festas. As vezes alguém cantava à noite para todas ou tocava o piano que estava logo ali no corredor ou ainda contava histórias,  em meio a festas, brigas e risadas. Era um conviver rico e intenso.




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RUMO AO DESCONHECIDO - II

Fiquei uns 3 dias em Moscou, no alojamento havia gente de muitos lugares e lembro de na cafeteria já começar a usar minhas habilidades linguísticas. Graças aos estudos ainda em Porto Alegre, no Instituto Cultural Brasil – URSS, dirigido pelo saudoso Paulo Gomes da Silveira (para mim Seu Silveira), pelo menos podia juntar as letras e ler; e isto era de tremenda importância na locomoção por exemplo, já que no magnífico metro de Moscou o nome das estações estava somente escrito em russo. Eu também tinha algum conhecimento do vocabulário e expressões mais usadas, mas lembro que quando cheguei em Kiev, já no internato da escola, umas senhoras russas, muito grandes e gordas, vieram falar comigo com aquele jeitinho muito russo, de quem está brigando e discutindo; com um tom de voz tão alto que, com o susto, tive um bloqueio comunicativo que durou dias. O mais incrível é que quando voltei ao Brasil, dois anos depois, falava como elas e deixava todos espantados com aquele tom tão enérgico.

Mas então, depois desta curta estada em Moscou, cidade que visitaria muitas vezes, fui colocada em um trem com destino a Kiev, capital da Ucrânia.  Lá começaria meus estudos  na Escola Estatal de Ballet Clássico de Kiev. 


Foi uma longa jornada, a maior parte do tempo meio delirante porque com a mudança brusca de temperatura do verão brasileiro para o inverno russo, eu estava com febre e dor de garganta e lembro vagamente de uns rapazes colombianos cuidando de mim durante a viagem. 


Tive uma grata surpresa ao chegar em Kiev e à escola. Esta, um prédio de dois andares que ficava dentro de um parque estupendo e com o alojamento quase ao lado. Era uma escola destinada a formação em música e dança, estudantes dos cursos conviviam e neste mesmo parque havia uma piscina térmica que eu viria a frequentar muito, junto com outros colegas de dança.


Kiev sempre foi conhecida como Cidade Jardim (foto abaixo), pela quantidade de verde e parques, o clima era mais ameno, um inverno entre -18 e -23 graus e todas as estações bem definidas. Tinha muitas atrações culturais. Muitos teatros (Teatro de Kiev de Ópera e Ballet- foto acima) com ininterrupta programação de ballet, ópera, circo, teatro, onde nós estudantes praticamente tínhamos livre acesso. Na verdade as entradas para os teatros eram muito baratas e as pessoas tinham como hábito de seu dia-a-dia, sair do trabalho e ir assistir algum espetáculo. Ir ao teatro não era um evento social, era parte do cotidiano, apreciar as artes naquele país era um direito usufruído pela população e ser artista era realmente algo apreciado e respeitado. Toda vez que eu falava que era aspirante a bailarina, percebia a admiração e respeito que isso provocava nas pessoas que viam isto como um privilégio. 





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RUMO AO DESCONHECIDO I




O ano era 1988 e lembro perfeitamente de quando olhei pela pequena janela e vi aquela vastidão branca com alguns perdidos pontos coloridos, casas minúsculas desde as alturas. A medida que o avião descia eu sentia o estômago apertar e só pensava apavorada que teria que desembarcar em alguns minutos.


Poucos dias antes, estava em casa almoçando, num dia quente de novembro, quando recebi um telefonema comunicando que deveria me apresentar na escola até dia 2 de dezembro. A falada escola ficava no outro lado do Atlântico e a notícia que me tirou totalmente o apetite, era na verdade meu mais ardente  sonho se realizando: tinha recebido uma bolsa de estudos para cursar ballet clássico no país de maior tradição nesta arte, então União Soviética.

Embora na viagem eu estivesse acompanhada de um músico, outro bolsista,  que se dirigia ao Conservatório Tchaikovsky em Leningrado, cidade agora conhecida como São Petersburgo outra vez, a chegada na maravilhosa cidade de  Moscou foi tumultuada. Não havia ninguém nos esperando e tivemos que descobrir com nossos parcos conhecimentos de russo, como sair do aeroporto e para onde ir. Conseguimos arrumar um táxi que nos levasse ao alojamento para estrangeiros recém chegados, uma verdadeira Torre de Babel ao sul de Moscou, conectada a uma estação de trem, perto da Universidade Patrice Lumumba, repleta de estudantes vindos de diferentes lugares do mundo. Meu colega de aventura, na confusão da chegada e me ajudando com minhas seis malas, acabou por deixar sua única mala esquecida na rua, em frente ao aeroporto e teve que voltar no mesmo táxi para tentar recuperá-la. Fiquei lá sozinha, no meio da neve, cercada de malas, na frente do enorme prédio e com uma temperatura nada amena de 30 graus negativos.

Com todo aquele frio, veio um grupo de estudantes de dentro do alojamento me socorrer e um pouco mais tarde meu colega voltava com sua mala, que havia sido recolhida da rua e esperava por resgate no aeroporto. Tivemos nossas primeiras lições de solidariedade naquele alojamento, um admirável mundo novo se abria diante dos olhos e eu ainda não sabia, mas aprenderia muito mais do que dança naquele país.

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OS MESTRES RUSSOS - I

Meu primeiro contato com a escola russa de ballet foi pelas mãos do saudoso Walter Árias. Eu era aluna de Dona Tony Seitz Petzhold e frequentava a escola diariamente. Muitas vezes ficava espiando as aulas de Walter, achava tudo muito rápido, complicado e mal entendia aquele acento dele que misturava o espanhol com o português - era assustador. Walter dava as aulas e demonstrava os exercícios, insistia nas posições de corpo e cabeça (tão características da escola russa), usava acentos musicais interessantes e diferentes e tinha a didática de quem  provavelmente havia sido preparado para ser um bailarino e não um professor.

Mas para mim, ele era a prova viva de que  não era um delírio almejar ir para a União Soviética estudar dança, era possível sim. Ele já tinha tido esta experiência e contava histórias curiosas de sua estada em Leningrado.  Meu sonho então, era ir até a fonte,  mergulhar no ballet naquele país onde havia larga tradição, estudar em uma daquelas escolas que haviam formado nossos ídolos na época - Mikhail Baryshnikov, Natalia Makarova, Rudolf Nureyev.

O convívio com Walter quando me tornei sua pupila foi no início muito difícil, ele fazia parte daquela antiga escola de mestres que acham que os alunos devem passar por todo tipo de provação para merecer sua atenção - e eu passei! Conquistei meu espaço junto a ele porque tinha sede de conhecimento e sabia que ele, a sua maneira, queria nos transmitir tudo que sabia. Foram anos de muito aprendizado, primeiro fazendo aulas, depois participando do Ballet  Phoenix. Paralelamente, buscava caminhos para realizar meu sonho de viajar para União Soviética e enquanto meus colegas no Colégio Farroupilha se preocupavam com o vestibular, eu desejava terminar aquela etapa para ficar livre e realizar as únicas duas coisas que me interessavam na época, viajar e dançar.

Quando finalmente acabei o colégio, ansiava por novos desafios e aprimoramento técnico, afinal estava me preparando para ir para a fonte do ballet clássico. Com total incentivo e inestimável apoio de meus pais, me transferi para o Rio de Janeiro, onde sabia que pelo menos duas grandes maestras davam aulas de escola russa - Tatiana Leskova e Eugenia Feodorova. Acabei frequentando a escola de Dona Eugenia por dois anos e mesmo morando em pelo menos 6 diferentes endereços na Cidade Maravilhosa naquele período, todos os dias subia as escadas do estúdio na rua Santa Clara, coração de Copacabana.

Dona Eugenia era uma maestra espetacular, havia sido formada na Escola Coreográfica Estatal de Kiev, Ucrânia, que incrivelmente eu viria a conhecer muito bem, dali a algum tempo. Sua carreira de bailarina havia sido interrompida pela Segunda Guerra Mundial e depois de rodar pelo mundo e trabalhar em muitas diferentes companhias, havia chegado ao Brasil como convidada e decidido se estabelecer no Rio de Janeiro. Sua contribuição para a dança brasileira é enorme e me considero privilegiada com a  sorte daqueles que puderam receber seus ensinamentos. Suas aulas eram fortes, precisas, estruturadas nos moldes da escola russa mais pura. Ela, de estatura baixa e compacta, mostrava os exercícios com uma leveza e vivacidade cativantes. Sempre falava da necessidade do bailarino de fazer aulas diariamente e da dedicação que tal arte exige. Dona Eugenia exalava a força e vitalidade da alma russa, tinha um respeito enorme pela dança e frequentar suas aulas eram verdadeiros mergulhos na cultura russa.

Frequentei outras aulas na cidade (saudades do professor Flávio Sampaio!) e aproveitei minha estada para acompanhar a vida cultural da capital que oferecia uma infinidade de possibilidades. Assisti no Teatro Municipal do Rio de Janeiro espetáculos de dança que na época seria impossível ver em Porto Alegre: Paul Taylor Company, Twyla Tharp Dance, Nureyev com as étoiles do Ballet da Ópera de Paris (fã incondicional, consegui até um autógrafo dele...), Pilobolus, Momix, Ballet de Stuttgart com a obra Eugene Oneguim estrelada pela maravilhosa Marcia Haydée, Dance Theatre of Harlem, entre tantas outras apresentações memoráveis.

Havia sido apresentada, por várias mãos talentosas, à uma das mais importantes escolas de dança do mundo, o Método Vaganova. Havia tido minha primeira experiência vivendo longe de casa e da família.

Se aproximava o momento de iniciar uma nova aventura, desta vez no longínquo país ícone do ballet mundial, o sonho de todo bailarino clássico. Chegava a hora de ter minha própria experiência com a escola russa de ballet.

Tânia Baumann

 * foto: Ana Carolina Fernandes - Folha/imagem 

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A DAMA DA DANÇA











Há momentos na vida em que somos tomados por lembranças muito doces e uma enorme gratidão nos invade. É a emoção de voltar a certos lugares que mais do que importantes, foram determinantes em nossa vida. Lembrar das pessoas que ali estavam, dos momentos passados juntos, de tantas histórias que se cruzaram e de tudo que frutificou daqueles tempos, foi uma enorme surpresa para mim. Sim, porque sou destas pessoas desapegadas do passado, que nunca tira fotos,  desmemoriada para datas, que adora se desfazer de coisas guardadas e que  às vezes vê um filme, para só no final lembrar que já o tinha visto.

Mas hoje, estive no Casarão da Cristóvão, antiga Escola de Bailados Clássicos Tony Seitz Petzhold, agora um Centro Cultural dirigido pela neta de Dona Tony, como carinhosamente a chamávamos. Estive mais precisamente ensaiando com os bailarinos da Porto Alegre Cia de Dança, no espaço batizado Sala Walter Árias.

Primeiro, claro, lembrei de Dona Tony, sempre na escola, uma mulher esguia, cheia de energia, realmente a alma daquele lugar.  Era uma encantadora de pessoas, adorava conversar, contar histórias e para mim, era uma figura tão interessante que até hoje tenho em mente sua imagem elegante, sentada, com as longas pernas cruzadas, fumando em sua piteira, com aqueles olhos azuis brilhando.
Já havia ouvido falar dela porque Seu Rolla havia iniciado na dança por suas mãos. Quando finalmente tomei coragem para buscar suas aulas, ela me recebeu em sua escola de braços abertos e logo no primeiro dia disse: tu vais fazer aulas com Walter, mas antes vou te preparar para isso. Essa preparação durou dois anos e foi transformadora para mim. Ela era uma Mestra, orientava seus pupilos exalando seu amor pela dança e suas aulas eram repletas de divagações e conversas que enriqueciam o aprendizado técnico. A preparação só não foi mais longa porque Dona Tony praticamente me expulsou de sua classe. Ela sabia que seria e foi uma mudança brutal, mas necessária.

Então, nesta sala do térreo que hoje reformada tem ares mais modernos, passei a fazer aulas e ensaiar sob o comando de Walter Árias, um bailarino uruguaio que, chegando a Porto Alegre, havia sido acolhido por Dona Tony. Um artista de imenso talento, que tinha um gênio quase impossível, uma didática bastante austera para um professor, mas que nos passava apaixonadamente toda sua experiência de bailarino profissional.  E assim, na década de 80, nós, formadores do então Grupo Phoenix, fanáticos por dança, aspirantes a profissão de bailarino, sem pensar em cachês ou sequer imaginar que poderia ser de outra forma, trabalhávamos todas as tardes, diariamente, felizes, absorvendo tudo que podíamos e sempre contando com o olhar protetor e delicado de Dona Tony.
Foram anos dourados, de aprendizagem, de preparação, de convivência, onde aprendemos a exercitar o amor pela dança com comprometimento, paixão, dedicação e claro, muito divertimento. Walter era exigente e o Grupo, depois Ballet  Phoenix dançava ballet clássico. Após cada aula, ensaiávamos muito e ainda assim, muitas vezes íamos ao Casarão nos finais de semana ou tarde da noite, só pelo simples prazer de praticar um pouco mais.

No meu caso, aqueles anos passados no Casarão da Cristóvão me deram a confiança e energia para buscar voos maiores. Quando saí dali comecei um ciclo de viagens que me levou a lugares incríveis e experiências únicas no mundo da dança.

Fico feliz de ver o Casarão funcionando, hoje Casa Cultural Tony Petzhold, agora sob a batuta de Gucha, Thais Petzhold, que na época de minhas lembranças era uma criança de coque e pernas longas como a avó; e andava sempre na Escola, com uma amiguinha inseparável que já não recordo o nome, as duas parecendo adoráveis miniaturas de bailarinas russas.

Fico feliz de voltar a este lugar com meu grupo de intrépidos bailarinos.  Jovens que dançam na Porto Alegre Cia de Dança muito mais focados no prazer de dançar do que pelo retorno financeiro que a profissão possa oferecer. São novos artistas que atuam nos mesmos moldes antigos de Dona Tony e Walter, fazem aula e ensaiam  todos os dias, são movidos pela paixão e são a mostra viva de que o trabalho comprometido traz resultados.

Sim, sou desmemoriada, mas felizmente o coração não mente e o Casarão da Cristóvão faz parte destas carinhosas lembranças, que mesmo esquecidas, estão guardadas. Vivências que ressurgem às vezes com a força de uma Phoenix, para mostrar que o amor pela dança em Porto Alegre teve boas sementes e segue florescendo, mesmo que aparentemente das cinzas.

EDUCAÇÃO EM FOCO

TED é uma organização sem fins lucrativos que acredita no poder das idéias para mudar atitudes, vidas e, finalmente, o mundo. Começou (em 1984) como uma conferência reunindo pessoas de três mundos: Tecnologia, Entretenimento e Design. Desde então, seu alcance se tornou cada vez mais amplo criando uma plataforma que oferece livre conhecimento  e inspiração, apresentando alguns dos pensadores mais inspirados do mundo. Além disto, fomenta também uma comunidade de almas curiosas em se envolver com novas idéias e interagir uns aos outros.  
A partir de agora, queremos compartilhar algumas destas interessantes idéias, trazendo para nosso blog, algumas conferências que aconteceram no TED, abordando um tema que nos parece fundamental e com a qual estamos profundamente envolvidos:  Educação.  

AS ESCOLAS ACABAM COM A CRIATIVIDADE

Neste primeiro vídeo apresentamos Sir Ken Robinson, nome reconhecido mundialmente como um expert em criatividade e educação, com um extenso trabalho focado na investigação da importância da arte na educação formal. 
Ele, de forma apaixonada e divertida, em uma inspirada conferência em 2006, argumenta sobre a criação de um sistema educacional que estimule, em vez de enfraquecer a criatividade. 
Sir Robinson traz questões que nos fazem pensar sobre novos rumos para o Educação:
"Se você não está preparado para estar errado, você nunca vai chegar a nada de original".
"A criatividade agora é tão importante na educação como a alfabetização, e devemos tratá-la com o mesmo status."
"Todo sistema de educação na Terra tem a mesma hierarquia de temas: no topo estão matemática e linguagens, então as humanidades, e por último estão as artes."
"Muitos altamente talentosos, brilhantes, pessoas criativas, pensam que não o são - porque aquilo em que eles eram bons na escola não foi valorizado, ou foi estigmatizado".
"Não existe um sistema educacional no planeta que ensine dança todos os dias para as crianças da mesma maneira que lhes ensina matemática. Por quê? " 

FAÇA-MOS A REVOLUÇÃO DA APRENDIZAGEM

Nessa comovente, engraçada continuação de sua celebrada palestra de 2006, Sir Ken Robinson defende uma mudança radical das escolas padronizadas para um aprendizado personalizado -- criando condições nas quais os talentos naturais das crianças possam prosperar. Parte de suas considerações:
"Os recursos humanos são como recursos naturais, eles estão com frequência enterrados no fundo. Temos de os procurar, eles não estão simplesmente deitados por aí na superfície."
"Todas as crianças têm talentos tremendos e nós os esbanjamos impiedosamente."
"É a educação que é suposta nos levar para este futuro que não conseguimos perceber."

CEM ANOS DE EMOÇÃO


Em 25 de junho de 2012, celebramos o centenário de nascimento do Mestre João Luiz Rolla.

Como aluna totalmente dedicada aos seus ensinamentos, creio que o maior tesouro  que recebi frequentando sua escola e participando dos espetáculos de Rolla e Seu Ballet (1975-1982), foi a certeza de que a dança não é uma teoria, um sistema ou um conhecimento que você adquire. A dança é a dança. Só pode ser integralmente comprendida, através da experiência, ou seja dançando.

Lembro dos primeiros anos de escola, as alegres tardes frequentando as aulas no Auditório Araujo Vianna que atingiam seu ponto culminante quando aprendíamos dançando cantigas populares coreografadas: O Meu Chapéu de Três Pontas, Samba Lelê, Fui no Tororó, O Cravo e a Rosa, entre outras. Depois, seguindo  os estudos, a oportunidade de dançar coreografias com músicas de Schumann, Bachmann, Delibes, Grieg, Shostakovich, só para citar alguns compositores que Rolla apreciava.
Ah, e quanto Chopin ouvíamos... 

Assim como as coisas importantes da vida,  a paz, a felicidade, a realização e o amor, a dança está dentro de cada um de nós. Uma criança pode presentir isso, até melhor que um adulto, porque ela tem um mundo interno mais inocente, mais virgem, ela está mais próxima de suas raízes. Seu Rolla sabia disto intuitivamente e diante de seus pequenos pupilos era na atitude, na forma de trabalho dedicada e meticulosa que transmitia este conhecimento. Seu maior legado, sem dúvida,  são as gerações que formou e contaminou com seu amor pela dança.

O professor oferecia oportunidades a todos os alunos, de crescerem e descobrirem a si mesmos. Oportunidades iguais para serem desiguais, para serem únicos porque em sua sabedoria de artista reconhecia que na variedade de flores, de cores diferentes, de fragâncias distintas, o mundo se torna mais rico.

Sou infinitamente grata ao Mestre por me ensinar o ofício do bailarino e por fazer nascer em meu coração esta paixão pela dança que agora posso compartilhar na ESCOLA DA PORTO ALEGRE CIA DE DANÇA.

Graças ao Mestre aprendi que disciplina não pode ser confundida com condicionamento, que ter disciplina não se trata de ser rigoroso ou ser obediente. Disciplina é liberdade. É resultado de um trabalho de autoconsciência, algo construído no seu interior, você respeitando e observando à você mesmo. Através da prática e observação sistemática você vai descobrindo e incorporando métodos para fazer o que você quer fazer da melhor maneira possível, com eficiência, com resultado, com cuidado, detalhadamente, com amor.

Também descobri convivendo com o artista Rolla que a criatividade está em responder ao momento diretamente, imediatamente, sem idéias preconcebidas. Você olha para a situação, percebe o contexto, é sensível a ele — e age. Neste movimento a ação não parte da cabeça, de lembranças de situações passadas, mas brota do coração.
Seu Rolla era um homem do teatro, da ação, totalmente conectado ao seu tempo, conseguia ousar e inovar sempre.

Tive a sorte de ser aluna do Mestre Rolla e hoje poder usufruir de sua herança. Neste centenário em sua homenagem uma única frase pode sintetizar toda a emoção e reverência do momento: 
OBRIGADA SEU ROLLA!
Tânia Baumann

 * veja também entrevista especial com Lucia Helena Rolla sobre o centenário do Mestre

ENTREVISTA COM CLAUDIO NARANJO

en español 
A educação que temos rouba aos jovens a consciência, o tempo e a vida.

Quando se escuta a este psiquiatra chileno de 75 anos, temos a sensação de estar frente a Jean-Jacqué Rousseau de nosso tempo. Ele conta que esteve bastante adormecido, até que nos anos 60 foi  viver nos Estados Unidos. Ali foi discípulo de Fritz Perls, um dos grandes terapêutas do século XX e formou parte da equipe do Instituto Esalen na California. Ali teve grandes experiências no mundo terapêutico e no mundo espiritual. Teve contato com o sufismo e se converteu em um dos introdutores do Eneagrama no Ocidente. Também bebeu do budismo tibetano e do Zen.
Claudio Naranjo tem dedicado sua vida  a investigação e  a docência em Universidades como Harward e Berkeley. Fundou o programa SAT, uma integração da terapia Gestalt, o Eneagrama e a Meditação para enriquecer a formação de professores. Neste momento está lançando um aviso muito contundente: ou mudamos a educação ou este mundo se vai a pique.

 - Você diz que para mudar o mundo, a educação deve mudar. Qual é a problemática da educação e qual é sua proposta?
-A problemática na educação não é de nenhuma maneira o que lhes parece aos educadores. Eles crêem que os estudantes já não querem o que lhes é oferecido. A gente quer forçar-lhes a uma educação irrelevante e se defende com transtornos de atenção, com desmotivação. Eu penso que a educação não está a serviço da evolução humana senão da produção, ou melhor, da socialização. Esta educação serve para domesticar pessoas de geração em geração para que sigam sendo uns cordeirinhos manipuláveis pelos meios de comunicação. Isso socialmente é um grande dano. Se quer usar a educação como uma maneira de meter  na cabeça das pessoas uma maneira de ver as coisas que  convém ao sistema, à burocracia. Nossa maior necessidade é a de uma educação para evoluir, para que as pessoas sejam o que poderiam ser.
A crise da educação não é uma crise a mais entre as muitas crises que temos, senão que a educação está no centro do problema. O mundo está em uma crise profunda porque não temos uma educação para a consciência. Temos uma educação que de certo modo está roubando às pessoas sua consciência, seu tempo e sua vida. O modelo de desenvolvimento econômico de hoje eclipsou o desenvolvimento da pessoa.

- O que seria uma educação para que sejamos seres completos?
A educação ensina as pessoas a passar nos exames e não a pensar por si mesmo. Em um exame não se mede a compreensão, se mede a capacidade de repetir. É ridículo, você perde uma grande quantidade de energia! Em vez de uma educação para a informação, se  necessitaria de uma educação que se ocupe do aspecto emocional e uma educação da mente profunda. Parece-me que estamos presos entre uma alternativa idiota, que é a educação laica e uma  educação autoritária que é a educação religiosa tradicional. Está bem separar Igreja e Estado, mas, por exemplo, na Espanha, abandonaram o espírito  como se  religião e espírito fosse a mesma coisa. Necessitamos que a educação  também atenda a mente profunda.

- Quando você fala sobre espiritualidade e da mente profunda que você quer dizer exatamente?
Tem a ver com a própria consciência. Tem a ver com aquela parte da mente da qual depende o sentido da vida. Se está educando as pessoas, sem este sentido. Também não é  a educação de valores porque a educação de valores é muito retórica e intelectual. Os valores deveriam ser cultivados através de um processo de transformação da pessoa e esta transformação está muito longe da educação atual.
A educação também deve incluir  um aspecto terapêutico. O desenvolvimento como pessoa não pode ser separado do crescimento emocional. Os jovens estão muito machucados afetiva e emocionalmente  pelo fato de que o mercado de trabalho monopoliza os pais que já não estão mais disponíveis para os filhos. Existe muita carência amorosa e desequilíbrio nas crianças. Nenhuma pessoa pode aprender intelectualmente, estando emocionalmente machucada.
O terapêutico tem muito que  ver com devolver à pessoa a liberdade, a espontaneidade e a capacidade de reconhecer seus próprios desejos. O mundo civilizado é um mundo domesticado e o ensino e as crianças são instrumentos dessa domesticação. Temos uma civilização doente, os artistas se deram conta disto faz muito  tempo e agora cada vez mais os pensadores.

-Parece somente interessar à educação, desenvolver a parte racional das pessoas. Que outras coisas poderiam desenvolver-se? 
-Eu coloco ênfase em que somos seres com três cérebros: temos cabeça (cérebro intelectual), coração (cérebro emocional) e intestino (cérebro visceral ou instintivo). A civilização está intimamente ligada à tomada do poder pelo cérebro racional. No momento em que  os homens dominaram o domínio político, alguns 6000 anos atrás, estabeleceu-se isso o que chamamos de civilização. E não é somente a dominação masculina e o domínio da razão, mas também da razão instrumental e prática, que se associa com a tecnologia; é este domínio da razão instrumental sobre o afeto e a sabedoria instintiva que nos tem tão empobrecidos. A plenitude de uma pessoa só pode ser vivida por quem tem seus três cérebros em ordem e coordenados. Desde meu ponto de vista, precisamos de uma educação para  seres com três cérebros. Uma educação que se pode chamar  holística ou integral. Se vamos educar a pessoa inteira, devemos ter em mente que a pessoa não é somente razão.
Ao sistema convém que a pessoa não esteja muito em contato consigo mesmo e nem que pense por si mesmo. Por muito que se  levante a bandeira da democracia, se tem muito medo de que as pessoas tenham  voz e tenham consciência.
A classe política não está disposta a apostar na educação.

-A educação nos submerge em  um mar de conceitos que nos separam da realidade e nos aprisiona em nossa própria mente.  Como você pode deixar esta prisão? 
-É uma boa pergunta e uma pergunta  necessária no mundo educacional. A idéia de que o conceitual seja uma prisão requer certa experiência de que vida é mais do que isso. Para quem já tem interesse em sair da prisão do intelecto é muito importante a disciplina de deter a mente, a disciplina do silêncio, como praticado em todas as tradições espirituais: cristianismo, budismo, yoga, xamanismo... Parar os diálogos internos em todas as tradições do desenvolvimento humano tem sido visto como algo muito importante. A pessoa precisa alimentar-se  de outra coisa além de conceitos. A educação quer encerrar  a pessoa em um lugar onde ela seja submetida a uma educação  conceitual forçada, como se não houvesse mais nada na vida. É muito importante, por exemplo, a beleza. A capacidade de reverência, de admiração, de veneração, de devoção. Não tem que ver necessariamente com uma religião ou um sistema de crenças. É uma parte importante da vida interior que está sendo perdida, da mesma forma que se estão perdendo belas áreas da superfície da Terra, a medida que se constrói e urbaniza.

-Precisamente queria perguntar a sua opinião sobre a crise ecológica que vivemos.
 
-É uma crise muito óbvia, é a ameaça mais tangível de todas. Você pode facilmente prever que com o aquecimento da Terra, com o envenenamento dos oceanos e outros desastres que estão acontecendo, não vamos sobreviver sendo um grande número de pessoas como somos agora.
Estamos vivendo graças ao petróleo e consumimos mais recursos do que a terra produz. É uma contagem regressiva. Quando acabar o combustível será um desastre para o mundo tecnológico que temos.
As pessoas que  chamamos de  mais primitivas como os indígenas têm uma maneira de lidar com a natureza que  não vem do sentido utilitário. Na ecologia como na economia e outras coisas, queremos dispensar a consciência e funcionar apenas com argumentos racionais e isso nos está levando ao desastre. A crise ecológica só pode ser interrompida com uma mudança de coração, a verdadeira transformação, que só pode acontecer por um processo educativo. Por isso, não tenho muita fé nas terapias ou nas religiões. Somente uma educação holística poderia prevenir a deterioração da mente e do planeta.

- Podemos dizer que você encontrou um equilíbrio na sua vida nesse momento?
-Eu diria que cada vez mais, embora eu não tenha terminado a jornada. Eu sou uma pessoa com grande satisfação, a satisfação de ajudar ao mundo em que estou. Vivo feliz, se é que se pode ser feliz em esta situação trágica em que todos nós estamos.

-A partir de sua experiência, sua carreira e sua maturidade, como você processa o fato da morte?
-Em todas as tradições espirituais somos aconselhados a viver com a morte ao lado. Você tem que render-se a essa evidência de que somos mortais e eu creio que quem leva a sério a morte não será tão superficial. Você não tem tanto medo das coisas pequenas quando há uma grande coisa com a qual preocupar-se mais. Eu acredito que a morte só pode ser superada por aquele que de certo modo morre antes de morrer. Você tem que morrer sua parte mortal, a parte intranscendente. Aqueles que têm bastante tempo e dedicação e vão suficientemente longe nesta viagem interior, se  encontram cedo ou tarde com  o seu verdadeiro eu. E esse eu ou aquilo que se é, é algo que não tem tempo e dá a uma pessoa um pouco de paz ou um sentimento de invulnerabilidade. Estamos tão absortos em nossa vida diária, nossos pensamentos de alegria, tristeza, etc... Que não estamos em nós mesmos, não estamos atentos a quem somos. Para isso necessitamos estar muito em sintonia com a nossa experiência do momento. Esta é a condição humana, estamos vivendo o passado e o futuro, o aspecto horizontal das nossas vidas. Porém  pouco atentos para a dimensão vertical de nossas vidas, o aspecto mais alto e mais profundo, isso é nosso espírito e nosso eu e a chave de acesso é o aqui e agora.
Às vezes vamos em busca de nós mesmos e às vezes nos confundimos na busca de outras coisas menos importantes, como a glória.

Autor: Alberto D. Fraile Oliver 
Fonte: Fundación Claudio Naranjo

A EDUCAÇÃO DOENTE

en español  
"O doente era o sistema de ensino, o que faltava era a motivação, uma forma eufemística de dizer que a escola não tinha mestres, somente professores e técnicos."

Diziam de minha filha na escola que ela era uma menina bem especial, tanto que seu  professor de alemão um dia expulsou-a da classe por ser insuportável. Síndrome de Hiperatividade e Déficit de Atenção, diziam. E o psicólogo confirmou o diagnóstico apressado do professor. Mudamos de escola e de  método, e tudo mudou. Da noite  para manhã, esta síndrome, tão temida quanto caluniada, desapareceu. O diagnóstico estava errado e felizmente também seu prognóstico.

O doente era o sistema de ensino, o que faltava era a motivação, uma forma eufemística de dizer que a escola não tinha mestres, somente professores e técnicos."
Um ensino sem amor não motiva e a motivação é o ingrediente essencial de atenção, da aprendizagem e da memória.

Se o que conheces não é sabido, porque não o saboreias, se suas palavras apenas repetem o que já dizem os livros, mas não tem o contexto significativo de sua própria alma, se o que você diz não ressoa em seu coração, possivelmente sua classe se tornará um lugar onde reina o déficit de atenção. Certamente médicos e psicólogos te darão a razão  quando avaliarem clinicamente a situação. Mas o que nos importa é a causa.
Perderam a motivação, se entediam, sua atenção se dispersa  buscando o que na sala de aula não encontram...

Desbloquear o potencial humano, educar para uma cultura do compartilhar, integrar todos os aspectos da nossa inteligência em uma inteligência adaptativa que nos permita a todos dar o que viemos para dar de nossa vida... Não pode ser outro o propósito de uma nova Pedagogia, uma que convoque o melhor da cultura humana, representada nos recentes avanços da ciência e na contribuição de culturas milenares.

É hora de unir as ciências humanas e as ciências da vida na dimensão de uma ciência espiritual que nos permita dar sentido à crise atual. Talvez precisemos menos diagnósticos e prognósticos e mais compromissos com nossos filhos. Afinal, eles são as sementes da terra, a colheita do futuro e a esperança de uma cultura de relações humanas em sintonia com a Mãe Terra.

Temos dado passos gigantescos em termos de educação, é verdade que a mudança quantitativa é inegável, temos maior numero de pessoas estudando, mas no processo não tem existido um avanço  qualitativo correspondente: temos mais conhecimentos, talvez tenhamos adquirido novas técnicas, novas habilidades, mas no caminho vamos renunciando a capacidade de criar as nossas mais belas  obras.

Temos mais professores e menos mestres, mais doutores e menos sábios, sabemos mais sobre de produção em série e muito menos de artesanato, mais de peças renováveis projetadas para a competência e talvez mais ciência, mas muito menos da magia de fazer o que fazemos com  consciência.
Temos mais de todo o outro e muito menos de nós. Os sistemas massificados classificam como anormais todo aquele que sai da curva da mediocridade.

Educamos para a repetição e premiamos a memória e o automatismo, condenamos os estudantes a perder rapidamente sua vocação e os qualificamos para que  aprendam a reproduzir  modelos alheios. Quase todos os estudantes de medicina que um dia ingressaram  nas universidades cheios de  vocação,  irão perde-la após três anos de "Educação Superior". As más notas, a evasão escolar e a violência, não são a doença. São o sintoma inequívoco de um sistema de educação profundamente doente. Mas, mais orçamento, mais tecnologia, mais professores, mais computadores, mais salas de aula e mais aulas de valores desvalorizados pelo fundamentalismo do dogma são como um remendo. A doença de nosso sistema educacional é um profundo Déficit de Humanidade, uma perda de vocação pela vida. Educa para o sucesso, para a competência, para o exame, mas não para se apaixonar pela vida.

E se a pedagogia, mais do que um acúmulo de teorias e técnicas, e nossas medicinas, levassem implícito o amor? Esse dia a pedagogia seria também nossa terapia e a terapia será nossa melhor pedagogia. Esse dia, não muito distante,  a pedagogia convocará todas as nossas inteligências em essa  causa de sabedoria que vincula a Grande Cadeia da Vida.
Que essa Nova Pedagogia nos envolva na dimensão de uma nova cultura de relações humanas, uma em que a liberdade seja consequência da responsabilidade. Uma cultura no caminho da alma. Uma cultura da alma.

Para viver a crise.

Antes foi a metáfora da evolução, com a incorporação da lei do mais forte,  do desenvolvimentismo, do neoliberalismo. Agora, frente ao fracasso global das políticas neoliberais em toda a  América Latina, nos encontramos no vórtice mesmo do caos e nossa história já não poderá jamais ser a mesma.

Entre nós hoje, crises de identidade, crises de liderança, crises de sentido, todas as crises parecem apontar para o despertar de uma nova cultura, uma nova visão de nós mesmos no mundo. A emrg6encia do caos não pode ser outra do que o despertar o a uma sociedade interdependente e participativa, onde todos possamos ser nós mesmos, únicos.

Para não repetir a mesma história tantas vezes repetida, para despertar a um novo mundo, o Novo Mundo da Pátria Humana para conquistar o direito sagrado de sermos humanos, podemos finalmente decidir ser o que já somos: Humanidade.

O sentido da crise é um convite a humanizar a vida, nossa vida, a partir do interior; é uma proposta viva para transformar a história a partir de nosso coração, é um caminho para resgatar a nossa própria identidade e desdea  afirmação rotunda da dignidade humana, construir genuínas relações de fraternidade. Para  que a partir das entranhas americanas da dor surja vigorosa a corrente do  amor. Para que na escuridão da nossa noite seja mais intensa a luz da consciência. Para que todos contribuam para o surgimento de uma nova terra. 

O amor em tempos de crise.

A nossa é uma crise de amor. Talvez necessitemos menos ideologias e ismos, menos diagnósticos e prognósticos, menos especialistas; mais homens e mulheres íntegros e sensíveis. Talvez o único que necessitemos é humanizar a nossa humanidade. Humanizar a vida.

Escutar o canto do pássaro, comover-se pela fome do outro, reconhecer a ignorância de que somos para não andar por aí em toda a guerra, fingindo ser o que  em verdade não somos.

Às vezes nós pretendemos a paz, mas paz sem justiça, direitos para  morrer-se de fome, são,  com sua máscara de paz, a guerra mais desapiedada.
A Paz não chega quando nada está acontecendo nada ou quando já nada nos acontece. A paz nasce no coração quando o amor compreensivo dá a cada homem a oportunidade de desenvolver seu potencial.
Não necessitamos  de uma paz acomodatícia para nos  defendermos do medo. Necessitamos  de uma paz com justiça, a da noite de paz, a da comunhão, a da fraternidade, as das oportunidades para todos.

Jorge Carvajal - Mundonuevo

AO MESTRE COM AMOR















As tardes do Auditório Araújo Vianna, no coração verde de Porto Alegre,  eram repletas de dança. Lá a partir de 1966 e por um período de aproximadamente 20 anos funcionou a Escola de Ballet João Luiz Rolla.

João Luiz Rolla havia vindo do atletismo, praticava corrida na modalidade 110 metros com barreira no Sport Clube Internacional.  Em 1939, acostumado a saltar obstáculos por esporte, venceu os preconceitos de sua época e iniciou sua trajetória no mundo da dança. "A dança estava no meu sangue" se justificava e mesmo iniciando tardiamente seus estudos, com a professora Tony Seitz Petzhold, e sendo um dos poucos homens a praticar dança na cidade, formou-se bailarino.

Ainda na Escola de Tony, totalmente aplicado aos estudos e freqüentando todas as classes possíveis, depois de algum tempo passou a ministrar aulas para turmas iniciantes. Delineava-se aí o futuro de um dos precursores do ballet no Rio Grande do Sul.

Ele não quis seguir carreira profissional no Rio de Janeiro, São Paulo ou mesmo na Europa, decidiu se dedicar à arte em nossa cidade. Em 1951 fundou sua própria escola e resumia: "O bailado tem sentido altamente formativo. Desenvolve o sentido estético, atinge o espírito, forma o caráter, tem, portanto, influência na formação da personalidade".

Sendo um apreciador do movimento expressionista e da dança moderna, via no ballet a base técnica de todas as danças, de onde buscar elegância, postura, equilíbrio. Sua Escola era dedicada ao estudo do ballet, mas nós alunas, além de aprendermos passos de dança e coreografias, tínhamos a oportunidade de compartilhar de uma aura de disciplina, dedicação e amor à dança que emanava do mestre Rolla.

Somente as alunas adiantadas tinham o privilégio de receber os ensinamentos do próprio Rolla. Lembro que eu criança, tendo chegado à escola em 1975 por sugestão de um ortopedista, em pouco tempo já me esforçava ao máximo para atrair o olhar do mestre. Um misto de respeito e admiração me levava a não faltar nunca às classes e a estar sempre atenta as palavras dele.

Os espetáculos de final de ano da Escola eram os momentos mais esperados por todos. Seu Rolla além de fazer coreografias, imaginava cenários, desenhava figurinos, inventava a iluminação e muitas vezes contava com parcerias de outros criadores portoalegrenses nestas áreas. Era um artista e cuidava de todos os detalhes de sua criação.

Era também um inovador e ele mesmo contava orgulhoso para nós que não tínhamos idade suficiente para ter acompanhado o fato marcante no cenário da dança portoalegrense, que "2001 - Uma Experiência pelas Fronteiras sem Fim da Dança" criação dele de 1969, teve um público de 14 mil pessoas contando duas apresentações no Auditório Araújo Vianna e seis no Teatro São Pedro.

Foram muitos anos de convivência enquanto aluna e depois muitas  amigáveis conversas no bairro Bom Fim sobre dança, artes e a história de Porto Alegre que ele adorava contar. Como boa discípula, estava sempre por perto buscando orientação e inspiração e Seu Rolla sempre tinha palavras afetuosas de incentivo e aquela generosidade característica dos grandes mestres.

E claro, como todo verdadeiro mestre, Rolla iniciou uma linhagem que ainda hoje tem seguidores espalhados pelo mundo, atuando em dança: Sayonara Pereira, Rubem Barbot, Carlota Albuquerque, Sheila Silva, Lenita Ruschel Pereira, Isabel Beltrão, Maria Cristina Futuro, Manon Freire Giorgio, Elizabeth, Beatriz e Ligia Gutierres, para citar alguns.

O professor, coreógrafo e criador, influenciou gerações de crianças, jovens e adultos e deixou sua herança no percurso da dança no Rio Grande do Sul. Seu Rolla semeou o amor pela dança no coração das pessoas e abriu caminhos para tornar  Porto Alegre, a Cidade da Dança.
Tânia Baumann

*junho de 2012 comemoramos 100 anos de nascimento do mestre Rolla.

CENTENÁRIO DE JOÃO LUIZ ROLLA

ENTREVISTA ESPECIAL COM LUCIA HELENA ROLLA GONÇALVES WEISS

por Amanda Jansson
Se estivesse vivo, o bailarino e professor de dança João Luiz Rolla completaria 100 anos neste 25 de junho. Para saudar o Mestre, um dos grandes nomes da dança no Brasil, o blog da PORTO ALEGRE CIA DE DANÇA conversou com a sobrinha de Rolla, Lucia Helena Rolla, que relembrou a vida e a carreira do tio e, com belíssimas palavras, ajudou a fazer a merecida homenagem a este grande nome da arte.



- João Luiz Rolla foi um dos primeiros homens a praticar a dança clássica no Rio Grande do Sul e, posteriormente, a manter uma escola de dança. Qual foi seu papel para a difusão da dança como arte no Estado? Como ele via a dança?
Como um dos precursores da Dança no RS e, sobretudo, por se tratar de uma figura masculina ocupando um espaço eminentemente feminino, Rolla, como bailarino, deixa um exemplo de coragem e determinação por romper com os padrões da época. Como professor e coreógrafo, atingiu seu mais importante papel para a difusão da Dança. Viveu o ballet como a razão de ser da sua vida. A Dança foi sua arte maior. Formou e influenciou gerações de bailarinos, professores e coreógrafos que seguem atuando no cenário nacional e internacional. Todos com a marca e o "carimbo" dos ensinamentos de seu mestre.

- Quanto tempo a Escola de Dança João Luiz Rolla atuou e onde era sediada?
A Escola de Dança João Luiz Rolla foi fundada em 1951 e atuou por 35 anos na cidade de Porto Alegre. Teve várias sedes, dentre as quais a Rua dos Andradas, no prédio do outrora existente cinema Cacique, a Rua General Câmara, Rua Senhor dos Passos, Rua Alberto Bins, Rua Marechal Floriano, sendo que, desde 1966, passou a funcionar nas dependências do Auditório Araújo Vianna no bairro Bom Fim.

- Como o nome do bailarino se perpetua hoje na sociedade? Ele ainda influencia alunos e amantes da dança?
O nome do Mestre Rolla constitui-se num marco da Dança do Sul do Brasil e deve ser reconhecido como um dos mais completos coreógrafos brasileiros. Gênio e talento à frente de seu tempo, não conhecia obstáculos, apenas desafios que superava com muito trabalho, exigência de si próprio, de seus alunos e de todos os que se envolviam com as apresentações de sua escola. Basta lembrar a ousadia, técnica e plasticidade de suas mais conhecidas criações, o ballet GRAND CANYON com música de Ferde Grofé e 2001 UMA EXPERIÊNCIA PELAS FRONTEIRAS SEM FIM DA DANÇA, com músicas da trilha sonora do filme 2001 Uma Odisséia no Espaço.
Sua obra continua sensibilizando os amantes da Dança e será sempre um referencial para aqueles que desejam se aventurar pelos mesmos caminhos. 

- O que fez Rolla deixar o atletismo e entrar de vez na dança? Como a professora Tony Seitz Petzhold atuou nessa época de sua vida? Quais eram os nomes dessa área que o influenciavam?
Rolla nasceu e cresceu em uma família apreciadora de música, teatro e manifestações artísticas em geral. Desde menino teve a oportunidade de participar de apresentações escolares exercendo já seu talento. Na juventude, interessou-se por esportes e, na década de 30, tornou-se atleta pelo Sport Club Internacional, onde praticava corrida na modalidade 110 metros com barreira. Nessa época, conheceu a professora e bailarina Tony Seitz Petzhold que o convidou para fazer uma experiência com aulas de ballet em sua escola. Foi o divisor de águas em sua vida. Apaixonou-se pela Dança e, desde então passou a se dedicar com total empenho à nova vocação. Sua primeira apresentação ocorreu no ano de 1939 com o ballet A Bela Adormecida, criação musical de Walter Schultz Portoalegre. Sua escolha estava feita. Sua paixão definida. Para sempre a Dança.
Certamente, nomes emblemáticos dessa área contribuíram para sua formação: Isadora Duncan, Anna Pavlova, Nijinsky, Marius Petipa, George Balanchine, Martha Graham, Vaslav Veltchek, Otto Werberge, Pina Baush e muitos outros, foram objeto de  seu interesse. Rolla foi um autodidata. Buscou conhecimento em livros e viagens, aprimorando cada vez mais sua arte. Indo mais além, se interessou em aprender sobre técnicas de palco, iluminação, cenários. Nada lhe escapava na montagem de seus espetáculos. Desde o figurino dos alunos, maquiagem, som, jogo de luzes, em tudo ele estava presente, opinando, sugerindo, discutindo... De modo que muitos nomes, muitos livros, obras, músicas e ritmos o influenciaram. Sem esquecer sua professora, Tony Seitz Petzhold, como influência primeira em sua arte e sua escolha.

- Para ser bailarino, Rolla precisou contrariar um certo "machismo" que havia em sua época. Como foi para ele conseguir destaque numa área que era majoritariamente feminina?
Para compreendermos o gigantesco salto efetuado por Rolla, seu imenso grand jeté, precisamos nos reportar ao que era a sociedade dos anos 30 numa cidade como Porto Alegre. Estado orgulhoso de suas tradições gauchescas, em que a dança folclórica praticada pelos homens materializava-se na figura viril, calçando botas e vestindo bombachas, a cidade via surgir, não no CTG, mas no palco, um homem que ousara trocar as bombachas pelo collant e as botas pelas sapatilhas. Contava ele então com 27 anos. Corpo perfeito, belo rosto, olhar instigante, o jovem Rolla lançava-se à dança tal qual se lança uma flecha ao ar. Contando com o apoio de sua família, dedicou-se de corpo e alma àquilo que já existia dentro de si e que só então descobrira: a paixão por dançar. Sentia-se forte, o suficiente, para enfrentar preconceitos. Não foi preciso. Seu trabalho e sua excelência receberam reconhecimento imediato. Rolla rompeu paradigmas, soprou novos ares, revolucionou idéias. A Dança fôra mais forte, saíra-se vitoriosa. O salto estava dado. 
  
- Como se explica, na ocasião da abertura da Escola de Ballet João Luiz Rolla, a grande procura, em uma época em que a dança não parecia ser tão difundida?
Pela sua competência, talento e gênio criador. Além disso, ele representava o novo, o inusitado, a figura masculina atuando com firmeza e exigência num reduto de domínio do feminino. A sociedade dos anos 50 também estava mudando e o ballet era procurado por famílias que desejavam aprimorar a educação de suas filhas. Não se pode esquecer que o ballet possui um cunho formador, requer disciplina, tenacidade, exercícios repetidos à exaustão. Por outro lado, é um convite à emoção, ao ritmo, à música... E é justamente essa mistura de sensações que o torna uma arte tão completa e apreciada em todas as épocas. Os ingredientes, ele os tinha todos. A magia estava em dançar. E, de repente, a Escola de Dança João Luiz Rolla transformou-se num pólo difusor desta arte e, em seguida, celeiro de grandes bailarinos e profissionais da Dança.  

- Rolla coreografava espetáculos de dança todos os anos para a Escola. Quais obras você destacaria nesta trajetória?
Primeiramente, há que se dizer que tudo aquilo que o Mestre Rolla coreografou, fosse no ballet clássico da mais pura tradição romântica, fossem ballets contemporâneos, pantomima-ballet, coreografias que contemplaram a música popular brasileira, ou o Jazz, absolutamente tudo, se transformava em espetáculo de extrema qualidade. Sua obra, por inteiro, é perpassada pelo toque de seu gênio criador, visionário, instigante. Já fizemos menção aos dois marcos de sua criação: O ballet GRAND CANYON (1958)  e 2001, UMA EXPERIÊNCIA PELAS FRONTEIRAS SEM FIM DA DANÇA (1969). Considerados suas mais importantes criações, aclamados pelo público e pela crítica, ambos foram apresentados no Theatro São Pedro, enquanto o segundo, foi remontado com reapresentação em 1979 no Auditório Araujo Viana. Na ocasião, o espetáculo foi assistido por milhares de pessoas, povo e elite se misturando. Como Rolla queria. Arte para todos.
Além destes Ballets, destacamos FINLÂNDIA e O CISNE DE TUONELLA com música de Sibelius, BURLESCO de Bela Bartók, ASSASSINATO NA DÉCIMA AVENIDA e, ainda,  CATEDRAL SUBMERSA ao som da música de Debussy. Sem esquecer das participações do seu corpo de Ballet em Óperas, como foi o caso de AÍDA de Verdi.  Todos memoráveis, que desejaríamos assistir mais uma vez e outras mais.

- Com sua história, o professor Rolla mostrou que é possível superar obstáculos e alcançar o que se sonha. Qual a importância de relembrar o mestre neste centenário de seu nascimento?
No ano em que se comemora o centenário de seu nascimento, queremos relembrar o Mestre Rolla de todas as formas. Mistura ousada de razão, paixão e sensibilidade, movido por um gênio criativo e intenso, cumpriu sua vocação existencial com a maestria dos virtuoses. Certamente estará dançando em outras dimensões, buscando - coração inquieto - novos ângulos, nova luz, novas coreografias... Como numa transcendente e imortal EXPERIÊNCIA PELAS FRONTEIRAS SEM FIM DA DANÇA.

* fotos do arquivo do CEME - ESEF, UFRGS.